A solidão das mulheres


Nas últimas semanas, ouvi de alguns pacientes homens diferentes relatos sobre suas companheiras estarem se sentindo sozinhas. Não as conheço e, em análise, o outro do outro sempre diz mais sobre este do que sobre aquele. Ainda assim, a sincronicidade das falas me chamou atenção. Das minhas pacientes mulheres, muitas vezes escuto a mesma queixa em primeira pessoa.
As mulheres sentem-se sós. Solteiras, em relacionamentos, hétero ou homossexuais — e como podemos analisar isso?
Para além do âmbito individual de cada sujeito, existe algo que toca o coletivo, uma sensação compartilhada, algo comum a todas.
Nesse mesmo período, as notícias e as ruas se voltaram, mais uma vez, para o fim da v1ol3nc1@ contra as mulheres. E não é difícil perceber como esses temas se conectam: o aspecto coletivo que permeia as subjetividades e, consequentemente, as relações. Quando olhamos para os dados, para os relatos, para o que se repete, a sensação de isolamento deixa de parecer apenas individual.
Para além da solidão, há também a desarticulação. Um distanciamento que é resultado de um projeto de mundo que estimula a individualização, o afastamento e nos enfraquece - física e psiquicamente- tomando-nos aquilo que há de mais precioso: tempo e pulsão de vida.
Por isso, talvez valha retomar o essencial, atuar no âmbito micropolítico: reconhecer quem está por perto: sua rede, amigas, mulheres de confiança, pessoas com quem compartilhar medos, sonhos e desejos. Nutrir e criar redes com disponibilidade, intencionalidade e afeto.
E os homens também fazem parte desse cenário. Apoiar as mulheres que estão ao seu lado não é um gesto grandioso, mas cotidiano: ouvir, participar, dividir, implicar-se.
Não estamos sozinha, estamos desarticuladas. Essa consciência, somada ao vínculo com outras mulheres, é o que permite transformar a estrutura. E, quando nos reconhecemos nesse processo, deixamos de ser territórios-ilha e nos tornamos potências continentais.
Vamos juntas!
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